Qual lição podemos aprender com a Europa?

A crise ocasionada pela pandemia do novo coronavírus é uma preocupação mundial. Semana passada, escrevi um texto sobre as lições que podemos aprender com as ações de combate ao vírus tomadas pelos países asiáticos, nas quais nos mostram que é possível lidar no início da crise de maneira mais cirúrgica com uma atuação governamental coordenada, ágil e com uso da tecnologia. 

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Hoje, decidi escrever qual a lição que estamos aprendendo com a ações dos países europeus. Na Europa não tivemos uma uniformidade de ações governamentais como na Ásia, focadas na prevenção, e assistimos a uma série de resultados diferentes. 

A Alemanha conseguiu controlar a situação aplicando os testes em massa (ação preventiva) e conseguiu isolar os infectados e suspeitos com maior sucesso que outros países europeus em quarentenas. Atrelado a essa medida, promoveu amplamente o distanciamento social, liberando apenas os serviços essenciais. A rede hospitalar alemã é a maior da Europa por número de habitantes, assim como o gasto per capita em saúde, com 4,3 mil euros por ano, sendo que a média europeia é de 2,9 mil euros. 

No caso da Inglaterra houve uma estratégia diferente, que não restringia a mobilidade social dos grupos de baixo risco, para que rapidamente as pessoas pudessem ter imunidade ao vírus, visto que a maior parte dos casos são assintomáticos. Mas essa abordagem foi descartada em função da velocidade de propagação do vírus ser muito alta, o que resultaria em um cenário de completo colapso do sistema de saúde do Reino Unido, uma vez que a taxa de leitos por 1000 habitantes (2,5) é a segunda menor da Europa e a metade da média europeia. Entretanto, a cultura britânica de investimento em ações preventivas resulta em um orçamento maior da Europa em relação ao gasto total em saúde. Com o agravamento da crise, o governo britânico adotou as medidas usuais de outros países, como o distanciamento social, quarentenas e fechamento de atendimento presencial de serviços, evitando aglomerações de pessoas. Além disso, em 4 dias criou um aplicativo no qual as pessoas informam ao NHS (o SUS britânico) sua condição de saúde diariamente. Com essa medida, o governo pode mapear a curva de evolução da gravidade dos doentes e quantos irão demandar cuidados intensivos, a fim de evitar o colapso do sistema de saúde NHS. 

Em relação aos países europeus com maior gravidade, Itália e Espanha, vimos que as medidas de restrição social para evitar aglomerações e a abertura somente de serviços essenciais foram adotadas bem mais tarde, quando o contágio já estava consolidado. Atribui-se à Itália a grande concentração inicial de casos devido a sua forte relação comercial com a China. Aliado a esses fatos, temos os dados históricos de (a) investimento per capita destes países serem 15% menores do que a média europeia, (b) força médica acima de 55 anos de um terço na Espanha e metade no caso italiano e (c) um terço das mortes regulares nesses países serem agravadas por fatores de risco. 

Como podemos observar nos gráficos abaixo, os 4 países citados obtiveram uma desaceleração do número de mortes diárias. Esse comportamento se deve a implementação de medidas de distanciamento social.

Gráfico Inglaterra – Número de óbitos
Gráfico Itália – Número de óbitos – Único país que adotou o LockDown
Gráfico Inglaterra – Número de óbitos
Gráfico Espanha – Número de óbitos

Então, a lição que podemos tirar da Europa com toda a experiência e ações diversas dos países é de que sistemas de saúde com dimensão sem folga e respostas governamentais tardias quebram o sistema de saúde em pouco tempo. Por isso, medidas restritivas são necessárias para achatar a curva de contaminação, e alcançarmos uma desaceleração no número de óbitos.

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